Projeto Mauá

Ensaio sem nome sobre o Morro da Conceição PDF Imprimir E-mail

"Tudo que eu não invento é falso."
Manoel de Barros

Escrito por Mário Miranda Neto

A
partir de um sistema classificatório que eu diria um tanto selvagem, meus confrades da Claceiça me pedem para escrever algo, a partir da Antropologia, sobre o morro que eu admirava e hoje moro. Devo a um carequinha simpático e rabugento, talvez mais estritamente um antropólogo e morador cá do Morro faz mais tempo, a importante recomendação para não fazer deste lugar que escolhemos para morar um lugar de estudo.

Também por obra deste conselho acabei por recusar um trabalho que fez meus bolsos sofrerem, mas meu coração aquietar. No ato da recusa, sem dúvida, reafirmei a escolha da condição de morador. Aliás, me dei conta que vir para o Morro da Conceição consiste na primeira vez que de fato escolhi um lugar para morar, já que desde que saí da casa dos meus pais minhas escolhas de moradia levaram muito em conta questões profissionais.

Todavia, se é que identidade é um termo que deva persistir, sua significação como um monolito rotulador deveria ser deixada de lado. Neste sentido morar aqui não apaga as socializações que sofri e, ao mesmo tempo, minha performance aqui não deve ser entendida como representativa de quaisquer categorias que eu pertença ou que outros me façam pertencer. Creio que isto possa, inclusive, deixar muitos de meus colegas de trabalho, conterrâneos, familiares, companheiros de militância e de Maracanã, enfim, aqueles que vão partilhando comigo existência com afinidades, aliviados.

Dizendo isto não estou negando que a própria antropologia e mais propriamente o que vem sendo chamado de antropologia urbana2 também influem na minha escolha por morar aqui de forma feliz. Mas é preciso dizer, ou talvez ousar dizer, que a antropologia não existe. Ao menos que ela não existe se não permitir que dentro dela várias formas de fazer antropologia coexistam. Antropologias persistem...

Portanto meu olhar, performance e principalmente preocupações são as de um morador que não é só morador e que não só teve contato com a antropologia. Além disso, este contato não se dá com todos os jeitos de lidar com a disciplina. Aliás, os artistas aqui do Morro, com suas técnicas variadas e todas legítimas3, têm me ensinado muito sobre coisas que a academia, com suas verdades escolares, infelizmente não pode descortinar completamente para mim. Tenho a sorte ou privilégio de fazer parte de grupos em instituições renomadas que ainda permitem e suportam a dúvida (para além de serem grupos de excelência). Ainda assim, vez por outra, me deparo com alguns cientistas e pesquisadores que tem pouca intimidade com a dúvida e com as perguntas. A situação me espanta até mais do que quando vi o morro pela primeira vez há mais de dez anos e me perguntei: "Como pode isto aqui no Centro do Rio?" Só passei a lidar bem com esta pergunta quando resolvi morar aqui4.

Por isso tudo, me nego a fazer qualquer coisa que possa ser tratada como diagnóstico antropológico do Morro, ao mesmo tempo que não me furto a descrevê-lo para amigos e agora para vocês que visitam este site.

Da minha varanda, o Morro não diz muito do ponto de vista arquitetônico. Objetivamente o espaço físico não me apetece enquanto visto apartado dos homens e mulheres que o significam de alguma forma. Para mim o Morro só é este lugar pelas pessoas que aqui estão e isto inclui aqueles que não moram aqui mas se fazem presentes.

Sinto suas caracterísiticas físicas somente quando minhas pernas reclamam quando subo a pé ou de bike suas ladeiras ou quando sinto orgulho e prazer de ir a pé para o samba da Pedra do Sal ou para o Escravos da Mauá. Nestas ocasiões brinco com a tradição de uma sociedade hierárquica5. Tenho de lidar com meu sentimento de que chego por cima...

Este por cima não tem que ver com as divisões do morro com seus altos e suas franjas. Ao contrário, como deixarei claro, participo de várias partes do Morro e assim sendo o por cima é em relação aos estrangeiros que agradam do lugar. Algum sentimento de orgulho precisa ser freado para não virar xenofobia, mas confesso já partilhar de um certo bairrismo que precisa ser controlado.

Entendo que efetivamente o espaço físico não é um ente separado das pessoas que o modificam ou o fazem permanecer. Por trás, ou pela frente, das belas casas antigas e de outras caindo aos pedaços estão relações sociais e econômicas talvez inimagináveis, isto fora as visões e intervenções sobre o Morro dos governos que ainda se ressentem de fazer política pública de Estado. Daí também o receio, partilhado por muitos moradores, do estrangeiro que não dialoga com o local e não se submete à um certo viver do Morro, mas que tem poder econômico ou político para gerar uma mudança que possa não ser digerida e processada no sentido de fazer boa parte dos moradores se sentirem parte dela. Se isto ocorrer, se manter no Morro e satisfeito irá se tornar mais difícil e os lamentos saudosistas de que antes era melhor irão ganhar cores mais vivas.

Mas, por hora, o Morro da Conceição sobrevive forte como a rocha que o diferenciou do seu finado irmão Castelo. E sobrevive muito em razão desta gente que está imbricada e implicada na compleição física dele. O morro é o Pila, por exemplo, com seu invariável cinquenta centavos na madruga. Quando não o vejo me preocupo, porque sei que também devo tomar conta dele como ele toma conta da rua. É companhia e segurança além de quebrar os galhos de comprar qualquer coisa que nos falte aqui em casa bem como ajudar a todos com as bolsas pesadas de compra. Sem o Pila a vida aqui na Pedro Antônio seria mais difícil e menos engraçada.

Devo explicitar que, além de tudo, falo do morro aqui da ladeira do Pedro Antônio que foi herdeiro da Chácara da Conceição que pegava o morro ia até a Uruguaiana e Senhor dos Passos. Tanto o avô como o pai de Pedro Antônio se chamavam Julião e assim também se esclarece a origem do nome Travessa Coronel Julião que o historiador das ruas Brasil Gerson (o nome dele é este mesmo) reputou como difícil de esclarecer.

Mas voltando, sou um morador que entra pelo Morro por qualquer de suas entradas. Reitero que entradas não são somente físicas. Os conceitos de pedaço e mancha6 talvez nos sejam úteis para interpretar isto que digo. O Morro possui seus pedaços distintos. As franjas do morro são absolutamente distintas entre si. A franja que dá para a prainha difere enquanto pedaço do início da João Homem ou do Beco do Escorrega. Entrar no morro então pela esquecida ladeira do Valongo, um dos ultimos pés de moleque do Rio, é ter a nítida sensação de universo paralelo. Para outros a Major Daemon é apenas um caminho e seus moradores acabam invisibilizados.

Todos estes pedaços que diferem entre si são diferentes dos altos do Morro que também diferem entre si. Daí a primeira dificuldade em dizer que morro é esse. Para mim que vim de fora o Morro da Conceição é tudo, mas talvez isto se dê porque para mim seja mais fácil participar de mais entradas dele, apesar de priorizar o pedaço da própria Pedro Antônio e de ter o Bar do Sérgio como Mancha7 que me faz conhecer e ser conhecido no pedaço da Jogo da Bola, que é bem diferente do pedaço da João Homem, só para chover no molhado das significações partilhadas pelos moradores mais antigos do alto do morro.

Seja como for, as confusões quanto ao que é Morro e o que não é, e quem é do Morro ou não, também podem ter que ver com isso. Realmente parece que o pedaço do Jogo da Bola não era onde o João da Bahiana frequentava terreiros de camdomblé e nem era em cima do Morro que escravos eram vendidos. É preciso lembrar que o Rio foi a segunda cidade da América Portuguesa a ter bispo e que um deles escolheu morar em cima do Morro da Conceição. Este poder não combinava com a falta de poder dos escravos que eram vendidos aqui sim, mas nos pés da nossa elevação. Do meu ponto e modo de vista, esta história, que teve como cenário o pé do morro, faz parte dele tanto quanto o pé do morro em si e esta memória segue reinventada nos sambas partideiros de segunda feira na Pedra do Sal.

E segue o morro como espaço social... O morro são as fofocas que além de aborrecer nos ensinam e protegem. É se fazer de indiferente aos “turistas provisórios”8 que passam olhando e fotografando para o alto ou as turmas de fotógrafos do SENAC que saem fotografando a esmo sem falar nada com ninguém e nem mostrando o produto dos seus exercícios fotográficos.

É a parceria e a malandragem do Aliado. É o Marinheiro mestre do Aliado com seu estilo lord Inglês que lhe cai tão bem. São as meninas das cadeiras de praia a papear até as altas horas da noite na Jogo da Bola. O futebol falado e reclamado no Cocão (Grita, Dácio!!!). É a rivalidade esquecida mas cheia de brasas do Jogo da Bola com a João Homem. É o Frigi saudoso da Banda da Conceição. É o respeito pelo quartel mesmo sabendo que o Campo do Cocão é da comunidade. É botar os filhos para estudar no Adro. É comprar cerveja gelada e sem casco no Bar do Beto (se ele te conhecer, registre-se).

É se irritar com a rapaziada que faz do morro estacionamento e anda em alta velocidade com carros que não são deles e, no segundo seguinte, deixar para lá porque afinal de contas eles estão trabalhando. ( Mas vocês estão abusando hein galera...) e se ver soltar um palavrão no Bar do saudoso Odilo e ver que a Dona Regina ou outra dama se faz presente. Morrer de vergonha, e pedir desculpas, mas ela dizer que não ouviu, apesar de você saber que muito provavelmente ela ouviu sim.

É comprar no 2001, no Pai D’égua e, na madrugada, na banca de frutas e na farmácia (que vende até cerveja) da Praça Mauá. É comer o hamburguer de janela, o churrasquinho de fim de semana e a pipoca em paz e por preço justo.

É comprar o pão do padeiro que passa de porta em porta de bicicleta. É cruzar com os entregadores da fábrica de salgados. E fazer amizade com os migrantes nordestinos que substituem os marinheiros na busca pelos quartos de morar do Morro. É sentir uma pontinha de orgulho pela presença dos artistas do bairro mesmo que isto seja lidar com “temperamentos artísticos”. É achar graça, relevar e simplesmente dar um abraço no Dallier.

E ir a pé para o centro, não ter falta d’água e ouvir um silêncio que não extingue mas abafa os rumores e humores do mesmo centro da cidade. É ver o carro pedir primeira marcha nas ladeiras. É comer um PF no Geraldo. É rachar alguma comida e cerveja depois da pelada. É ouvir a Ave Maria da Igreja as 18 hs.

É ver jogarem bola de alguma maneira na João Homem. É se preocupar com aqueles meninos, presentes em qualquer bairro do Rio, que podem vir a não usar mas abusar das ervas que “aliviam e acalmam” e também com as consequências que isto pode acarretar para todos no bairro. É tomar cerveja com o intelectual, com o artista, com o militar, com o marinheiro, com o aposentado, com o pipoqueiro e com a diarista todos no mesmo bar e com as crianças brincando na rua até a noite...

De tudo, se eu tivesse que fazer algum estudo seria sobre isso. Não é uma questão de harmonia, porque o controle pelo rumor se dá e não se nega diferenças econômicas e culturais... Talvez nem cordialidade haja de fato9.

Mas este diálogo entre gente diversa (talvez, em algum nível, não haja esta diversidade toda) sem que o morro perca sua maneira, para mim, é o grande lance deste lugar e que faz ele ser o que é. Por isso a preocupação com um certo assédio pelo Morro. Segundo alguns antigos isto sempre se deu mas poucos foram os que realmente vieram para cá e dos que vieram somente permaneceram os que “entenderam o morro”. Segundo relatos o morro sempre foi um ir e vir e este ir e vir também seria o Morro. Pode ser... Realmente achar casa aqui não é fácil e uma grande parte de moradores são proprietários.

Mas agora existe os projetos de revitalização do porto e seu entorno. Existe a comparação mais explícita com Santa Tereza e o pé do morro começa a ser chamado de “Nova Lapa”. Ora... Isto aqui não é Santa Tereza com as vantagens e desvantagens disto. E o Projeto Mauá não é o “Santa Tereza de Portas Abertas” e nem poderá vir a ser porque são lugares absolutamente distintos. Falo isto com a tranqüilidade de alguém que gosta muito e até já morou em Santa.

Escrevo agora me corroendo... Por ofício, e pela forma como o encaro , sei que as coisas nunca são como estão. Sei que o morro, assim como eu, muda e que o que me atrai nele está sempre em risco e pode ser reforçado ou não no passar dos dias. Mesmo assim optei escrever como morador e como tal, se me for permitido continuar participando deste lugar, gostaria que os filhos que poderei ter pudessem também brincar na rua e lidar com os ensinamentos das diferentes pessoas deste morro querido.

Que Nossa Senhora da Conceição e todos os Santos e Entidades já cultuados neste lugar nos abençoem.

OBS: Este texto, precipuamente, é destinado a participantes do Morro da Conceição. Possui referências que talvez só possam ser absolutamente compreendidas por estes participantes e a eles fica completamente franqueada a complementação com relação as situações que imagino viver aqui.

Morro da Conceição, 08 de dezembro de 2007.

Em obrigação à Nossa Senhora da Conceição.

 

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